Impressões


Tenho visto com surpresa e alegria um único público crescer em Porto Alegre. O da música erudita. Foram-se os tempos de concertos da Ospa com plateias cheias de pouca gente (ehehehe), por exemplo. Todos os concertos que eu tenho ido – e tenho ido bastante – têm tido excelentes plateias, pagos ou não. Tenho matutado muito sobre isso. Me ocorrem duas possibilidades. A primeira é de que as pessoas (por “as pessoas” entenda-se: as pessoas assim meio parecidas com a gente) estão traumatizadas com tanta demolição institucional/estatal na área da cultura. Parece que tem uma cruzada pra tentar acabar com tudo. Aí pode ser que o inconsciente (ou mesmo o consciente) puxe o pessoal pra abraçar a OSPA, a Orquestra de Câmara da Ulbra, a do Theatro São Pedro. Tipo: não, não acabem com isso! Coincidência ou não, ninguém tem falado em acabar com nenhuma das três. Ufa. Essa é uma hipótese. E a outra é mais maluca um pouco, mas me digam se faz algum sentido: nesse mundo de infinita oferta, tá todo mundo meio perdido, né? Eu, pelo menos, tou.

Dos oito mil discos que são lançados a cada instante, das centenas de filmes, livros… tá tudo ao alcance da mão, facinho, geralmente de graça. COMO QUE EU ESCOLHO?!?!? Aí, ir ler um clássico, por exemplo, não tem erro: muita gente já decidiu, há muito tempo, por mim. Não preciso ter medo de perder meu tempo tão disputado em alguma coisa que, sei não, hein? Pois me parece que tem acontecido a mesma coisa. A quase totalidade do repertório orquestral, ao menos no Brasil, é de peças compostas há, pelo menos, 80 anos (geralmente, há beeeeeem mais tempo). Que já passaram pelo crivo da história. Aí o cara não precisa nem pensar muito. No máximo (meu gosto, por exemplo) “opa, música barroca não tem erro”, ou “russos do fim do século XIX e começo do XX? tô dentro”, ou ainda “mozart, sim, mozart”, “brahms acho chato” e por aí vamos. Nem pensa muito. Vai, gosta, não toma susto, volta pra casa ou vai comer pizza feliz de alma e cabeça e ainda com o valor agregado do “opa, hoje saí mais culto” (ainda que essa premissa não deveria ser nunca a primeira – a gente sempre deveria ouvir música pra sair do mundo, não pra agregar valor nele). Será que faz algum sentido pra você isso tudo? Diz aí.

 

Impressões de Arthur de Faria

(Foto: Maí Yandara/ “Concerto para Violino nº 2” de Prokofiev / 13 de junho no TSP)

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